Governo estuda fim da escala 6×1 e quer garantir mais descanso sem mexer no salário

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Imagine trabalhar seis dias seguidos e ter direito a apenas um de folga. Esse é o modelo ainda adotado por milhões de brasileiros na indústria, no comércio e em serviços essenciais. Nos bastidores de Brasília, porém, ganha força o fim da escala 6×1, proposta que prevê mais descanso semanal remunerado, sem redução de salário. A ideia, defendida por membros do Executivo, sindicatos e parte do Legislativo, repercute como uma tentativa de modernizar a legislação trabalhista após a reforma de 2017 e alinhar o país a tendências internacionais de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.

Por que a escala 6×1 voltou ao centro do debate

A escala 6×1 está prevista no artigo 67 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e exige que o empregado trabalhe seis dias seguidos, folgando apenas um. Esse sistema foi criado em 1943, quando as jornadas eram mais longas e os direitos trabalhistas ainda engatinhavam. Setenta anos depois, especialistas apontam que o modelo se tornou obsoleto diante de avanços tecnológicos, automação e mudanças sociais.

O tema ganhou tração em 2023 com audiências públicas na Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sugerem que a redução da carga semanal de 44 para 40 horas pode gerar até 1,2 milhão de novos postos de trabalho ao longo de cinco anos. Já a Organização Internacional do Trabalho (OIT) recomenda ao menos dois dias consecutivos de descanso para preservar saúde mental e produtividade.

“Manter o trabalhador exausto é ineficiente para a economia e caro para o sistema de saúde”, afirma Mônica Bergamo, pesquisadora do Dieese.

O que muda com a proposta do governo

A minuta de projeto encaminhada ao Ministério do Trabalho estabelece:

  • Fim da escala 6×1 nos contratos regidos pela CLT;
  • Implantação de, no mínimo, dois dias de descanso semanal remunerado;
  • Manutenção do salário nominal, sem possibilidade de redução proporcional;
  • Flexibilidade para acordos coletivos definirem se a folga será consecutiva ou intercalada;
  • Período de transição de 12 meses para adaptação de turnos e cronogramas.

Na prática, a jornada semanal permanece em 44 horas, mas distribuída em cinco dias, com oito horas diárias e acréscimo de quatro horas compensadas via banco ou pagamento extra. Segmentos que dependem de atividade ininterrupta (hospitais, energia, transporte) poderão adotar escalas especiais, desde que garantam 48 horas de descanso a cada sete dias.

Impactos esperados para trabalhadores e empresas

Os efeitos do fim da escala 6×1 podem ser divididos em três frentes:

  • Saúde e bem-estar: estudos da Fiocruz indicam queda de até 23% no afastamento por doenças ocupacionais quando o empregado tem dois dias de folga.
  • Produtividade: empresas-piloto que adotaram o novo regime relataram aumento médio de 18% na eficiência, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
  • Custo operacional: haverá necessidade de remanejamento de turnos e possível contratação extra. A Firjan calcula alta inicial de 3% na folha, compensada por menor rotatividade e horas extras.

Para o advogado trabalhista Ricardo Calcagno, a medida “equilibra o jogo” entre capital e trabalho: “Quem produz mais descansado reduz falhas, acidentes e gastos com indenizações”.

Experiências internacionais que inspiram a mudança

O Brasil não é pioneiro no debate sobre jornadas mais curtas. Países como Islândia, Espanha e Nova Zelândia testaram semanas de quatro dias, relatando ganhos semelhantes aos previstos na iniciativa brasileira. Na América Latina, Chile e Uruguai já aprovaram leis que reduzem a carga para 40 horas semanais com dois dias de descanso.

Resultados compilados pela University College Dublin apontam:

  • Diminuição de 27% nos índices de estresse;
  • Aumento de 22% na atração e retenção de talentos;
  • Redução de 16% no consumo de energia em escritórios.

A experiência internacional serve de termômetro para possíveis ajustes na proposta brasileira, que optou por preservar o teto de 44 horas devido às especificidades da economia local.

Próximos passos no Congresso e como acompanhar

O projeto será enviado ao Congresso no segundo trimestre de 2024. A tramitação começa pela Câmara dos Deputados, onde precisará de maioria simples. Em seguida, segue para o Senado. Caso receba emendas substanciais, retorna à Câmara para revisão. O Planalto trabalha para aprovar a matéria ainda neste ano, antes da definição do orçamento de 2025.

Cidadãos interessados podem acompanhar o andamento pelo portal e-Cidadania, votar em enquetes e enviar sugestões de texto. Centrais sindicais também planejam audiências regionais para discutir pontos sensíveis, como compensação de horas e setores essenciais.

Se aprovado sem alterações, o fim da escala 6×1 entrará em vigor 180 dias após a sanção presidencial, oferecendo prazo razoável para ajustes internos de RH, negociações coletivas e adaptação de sistemas de ponto.

Fique atento às atualizações, pois a mudança promete redefinir o equilíbrio entre vida e trabalho no Brasil, elevando o padrão de qualidade de vida de milhões de profissionais sem sacrificar seus rendimentos.</p

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